Santa Catarina vem se consolidando, nos últimos anos, como um dos mais inquietantes laboratórios da extrema-direita no Brasil. Não se trata apenas de uma inclinação ideológica conservadora ou de disputas eleitorais comuns à democracia. O que se observa é a institucionalização de práticas e discursos que tensionam os limites da própria civilização democrática, resgatando mecanismos de controle, exclusão e violência simbólica que a história já havia condenado.
É sintomático que familiares diretos de um ex-presidente hoje condenado e preso por tentativa de golpe de Estado — articulada com setores militares de alta patente — tenham papel central nesse processo. O projeto político que emerge desse campo não se limita à retórica autoritária: ele se materializa em políticas públicas, escolhas administrativas e dispositivos legais que operam seletivamente sobre corpos e consciências.
Um exemplo emblemático dessa perversão institucional é a decisão de barrar ou enfraquecer o uso de câmeras corporais em policiais, justamente o instrumento que, em diversas democracias, se mostrou eficaz tanto para proteger o cidadão quanto o próprio agente público, garantindo transparência e reduzindo abusos. A justificativa implícita é clara: preservar o policial da responsabilização, mesmo quando há indícios de violência ou ilegalidade. Ao mesmo tempo, o mesmo Estado institui o uso de câmeras nos uniformes de professores, transformando o espaço pedagógico em ambiente de vigilância permanente. A inversão é brutal: o agente armado do Estado deve operar na opacidade; o educador, no escrutínio constante.
Essa lógica revela uma concepção profundamente distorcida de humanidade. O que se vigia não é o poder, mas o pensamento. O que se protege não é a vida, mas a força. Como nos alerta Achille Mbembe, em Necropolítica, o poder contemporâneo se define cada vez mais pela capacidade de decidir quem pode viver plenamente e quem deve viver sob ameaça, suspeita ou morte social. Em Santa Catarina, essa necropolítica se expressa menos pelo extermínio físico direto e mais pela normalização da exclusão, do medo e da humilhação cotidiana: pessoas barradas em rodoviárias, cidadãos tratados como suspeitos por sua aparência, origem ou opinião, e profissionais da educação submetidos a um regime de desconfiança estrutural.
Hannah Arendt, em Origens do
Totalitarismo, já havia advertido que os regimes autoritários não começam com campos de concentração, mas com a destruição progressiva do espaço público, da confiança social e da pluralidade. Quando determinadas populações passam a ser vistas como “menos dignas”, quando o Estado escolhe quem merece direitos e quem merece vigilância, a democracia já está corroída por dentro, ainda que mantenha suas formalidades externas.A tragédia política catarinense reside exatamente nesse ponto: na naturalização do inaceitável. Não basta restringir direitos; é preciso convencer a sociedade de que essas restrições são necessárias, morais e até desejáveis. O resultado é um Estado que parece, em certos momentos, se desvincular da humanidade e da própria ideia de civilização, operando mais como um laboratório de exceção do que como uma unidade federativa comprometida com a Constituição.
Mas a história ensina que nenhum projeto de desumanização é eterno. A democracia, apesar de ferida, ainda pressupõe escolhas — e escolhas implicam mudança. O “basta” que um dia se imporá não virá de decretos ou tribunais apenas, mas do próprio povo catarinense, quando decidir romper com o medo, com a vigilância seletiva e com a política do ódio travestida de ordem.
Escolher diferente é, antes de tudo, um gesto de reconstrução da humanidade comum. E esse gesto, cedo ou tarde, se torna inevitável.
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Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
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Joilson Bergher.
Profissional da Área de História!

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