Há lugares onde o mapa não serve para orientar, serve para avisar. Santa Catarina, às vezes, parece um desses territórios em que o chão não acolhe — vigia.
Na rodoviária, o corpo é suspeito antes do nome. Na pele escura, o crime já nasceu. No afeto dissidente, a culpa caminha de mãos dadas com o medo. O povo da rua não dorme: sobrevive num estado permanente de caça.
Como escreveu Hannah Arendt, o horror começa quando certos grupos deixam de ser vistos como plenamente humanos (Origens do Totalitarismo). Aqui, a desumanização não grita — ela sorri, legisla, normaliza.
Há também os cães. Cães mortos por prazer, por tédio, por ódio gratuito. Não é fome, não é defesa — é deleite. O gesto de matar o que não pode se explicar revela mais do que qualquer discurso político. Quem aprende a exterminar o indefeso não desaprende ao olhar para pessoas.
Achille Mbembe chamou isso de necropolítica: o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer — mesmo que lentamente, mesmo que simbolicamente (Necropolítica). Aqui, viver é concessão. Morrer é estatística.
Um governador que combate cotas num território de pobreza estrutural não governa o presente: administra heranças coloniais. A exclusão vira política pública, o silêncio vira método, o medo vira paisagem.
Este não é um estado apenas. É um aviso. Quando matar cães vira passatempo e perseguir gente vira rotina, o problema não é episódico — é sombrio, é profundo, é moral.
Joilson Bergher/Anti-Racista!

.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário