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Jornalista e ex-assessor de Comunicação da Associação Desportiva Jequié (ADJ) |
É esse fenômeno que chamo de viralatismo de cátedra: uma postura que, revestida de aparente racionalidade e sofisticação analítica, supervaloriza tudo o que vem de fora e minimiza sistematicamente o potencial do futebol brasileiro
Às vésperas de cada Copa do Mundo, o roteiro costuma ser
o mesmo! Antes mesmo de a bola rolar, multiplicam-se as previsões de que o Brasil está distante das principais seleções, enquanto Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, Portugal ou Argentina são frequentemente apresentadas como candidatas quase naturais ao título. É claro que todas possuem excelentes jogadores e projetos esportivos consistentes. O problema não está em reconhecer suas qualidades. O problema está na diferença de critérios.O futebol, felizmente, continua sendo o esporte mais imprevisível do planeta. Nenhum algoritmo consegue substituir os noventa minutos. Nenhuma previsão garante classificação. Nenhuma camisa vence sozinha.
Nesta Copa tivemos mais uma demonstração disso! A Alemanha, apontada por muitos como uma das favoritas ao título, acabou eliminada pelo Paraguai. Bastou uma partida para todas as certezas construídas antes do torneio perderem força.
Mas esse episódio está longe de ser isolado!
A Alemanha conquistou o mundo em 2014. Depois disso, foi eliminada ainda na fase de grupos em 2018, voltou a decepcionar em 2022 e agora sofreu nova eliminação precoce. Ainda assim, nunca deixou de ser tratada como potência e candidata em praticamente todas as competições.
A Itália, dona de quatro títulos mundiais, sequer conseguiu disputar as Copas de 2018 e 2022. Mesmo ausente das duas últimas edições, jamais perdeu o status de gigante do futebol.
A Holanda talvez represente o maior contraste entre prestígio e resultados. Encantou gerações, revelou alguns dos maiores jogadores da história, disputou finais, mas nunca conquistou uma Copa do Mundo. Ainda assim, entra em praticamente toda competição cercada de enorme expectativa.
A Bélgica viveu durante quase uma década a chamada “geração de ouro”. Liderou o ranking da FIFA, reuniu atletas extraordinários e era constantemente apontada como futura campeã do mundo. O título jamais chegou!
Portugal passou décadas produzindo grandes talentos antes de conquistar sua primeira Eurocopa, apenas em 2016. A Espanha, antes da geração histórica que venceu entre 2008 e 2012, carregava justamente o estigma de jogar bonito e fracassar nas horas decisivas. A Croácia chegou a uma final de Copa e a uma semifinal, mas também conheceu eliminações precoces. A Inglaterra, inventora do futebol moderno e sempre apontada como favorita, conquistou apenas um Mundial, em 1966.
A França, atual referência para muitos analistas, também viveu enormes fracassos. Em 2002, chegou como campeã do mundo e da Eurocopa e foi eliminada ainda na fase de grupos sem marcar um único gol. Em 2010, protagonizou uma crise interna histórica e voltou para casa precocemente. Nada disso foi suficiente para que fosse tratada como uma seleção definitivamente superada. Pelo contrário: sua tradição sempre foi utilizada como argumento para acreditar em sua recuperação.
Curiosamente, essa lógica raramente vale para o Brasil!
Basta uma eliminação brasileira para surgirem diagnósticos definitivos sobre o “fim da hegemonia”, a “falência do nosso futebol” ou a “incapacidade de competir com os europeus”. Parece que o Brasil precisa provar, diariamente, que continua sendo relevante. Nenhuma outra seleção carrega esse peso.
Esse fenômeno não se restringe às seleções europeias! Nos últimos anos, a própria Argentina passou a ocupar um lugar quase intocável no imaginário de parte da imprensa brasileira. Evidentemente, a conquista da Copa do Mundo de 2022 e os títulos recentes justificam reconhecimento. Seria absurdo negar seus méritos.
O problema começa quando o reconhecimento se transforma em reverência absoluta. Em alguns momentos, parece que qualquer análise precisa partir do pressuposto de que a Argentina continuará vencendo tudo, enquanto o Brasil, antes mesmo de entrar em campo, já precisa se defender das dúvidas.
O futebol nunca funcionou dessa forma!
Se tradição garantisse títulos, a Holanda já seria campeã mundial. Se grandes elencos fossem suficientes, a Bélgica teria levantado uma Copa. Se favoritismo resolvesse tudo, a Alemanha não teria acumulado eliminações recentes. Se planejamento eliminasse surpresas, não haveria zebras nem histórias inesquecíveis.
O Brasil também conhece essa realidade!
Tivemos gerações extraordinárias que não conquistaram o Mundial. A seleção de 1982 é considerada por muitos especialistas uma das melhores equipes que o futebol já produziu e acabou eliminada antes da final. Em 2006, reunimos um elenco repleto de estrelas e também fracassamos.
Da mesma forma, chegamos desacreditados em outras oportunidades. Em 1994, poucos imaginavam que aquela equipe conquistaria o tetracampeonato. Em 2002, havia enorme desconfiança sobre o trabalho de Luiz Felipe Scolari, sobre a condição física de Ronaldo e sobre a própria capacidade da Seleção de conquistar o título. A resposta veio dentro de campo, com o pentacampeonato.
A história das Copas ensina uma lição simples: favoritismo não ganha campeonato! Quem ganha é quem consegue jogar melhor durante um mês!
Outro aspecto que chama atenção é a diferença de tratamento dada aos treinadores. Quando o técnico é brasileiro, basta uma atuação ruim para que surjam adjetivos como ultrapassado, incompetente, perdido ou “burro”. A pressão é imediata, intensa e muitas vezes desproporcional.
Quando o treinador possui prestígio internacional, especialmente se vem do futebol europeu, a análise costuma ser mais paciente. Os erros passam a ser contextualizados. As derrotas ganham explicações. As dificuldades viram parte de um processo. A cobrança continua existindo, mas claramente sob outra régua.
Não se trata de desmerecer profissionais estrangeiros! Carlo Ancelotti é um dos maiores treinadores da história do futebol e seu currículo fala por si. O ponto é outro: por que a análise muda tanto conforme a nacionalidade de quem ocupa o banco de reservas? Se o critério é técnico, ele precisa valer igualmente para todos!
No fundo, essa discussão ultrapassa o futebol!
Ela revela um velho complexo de inferioridade que insiste em sobreviver em determinados setores da sociedade brasileira. Existe uma tendência quase automática de acreditar que aquilo que vem de fora é necessariamente mais moderno, mais competente e mais eficiente, enquanto aquilo que é produzido aqui precisa viver em permanente estado de desconfiança.
No futebol, esse comportamento ganha contornos ainda mais contraditórios!
O Brasil é o único país presente em todas as edições da Copa do Mundo! É o maior campeão da história do torneio! Produziu alguns dos maiores jogadores que o esporte conheceu. Continua sendo uma das seleções que mais revela talentos para o futebol mundial.
Nada disso garante que venceremos essa Copa ou a próxima. Ninguém sério afirmaria isso!
Mas também não existe qualquer fundamento para tratar a Seleção Brasileira como uma coadjuvante permanente, enquanto outras equipes recebem, quase por inércia, um crédito infinito.
Respeitar o futebol europeu é obrigação! Reconhecer o excelente momento da Argentina também! O futebol mundial evoluiu, tornou-se mais equilibrado e distribuiu melhor suas forças.
O que não faz sentido é transformar respeito em submissão intelectual. O que não faz sentido é adotar pesos e medidas diferentes para analisar exatamente o mesmo fenômeno.
O Brasil não precisa de ufanismo cego, nem de patriotismo ingênuo! Precisa apenas de algo muito mais simples: coerência!
Se a tradição continua sendo argumento para Alemanha, Itália, França e Inglaterra, também deve valer para o Brasil!
Se um ciclo ruim não apaga a história dessas seleções, também não pode apagar a nossa!
Se favoritismo é apenas uma hipótese para os europeus, também deve ser apenas uma hipótese para o Brasil, nem uma certeza de vitória, nem uma sentença de derrota!
Talvez tenha chegado a hora de abandonarmos o viralatismo de cátedra e voltarmos a analisar o futebol com equilíbrio, honestidade intelectual e critérios iguais para todos.
Afinal, a maior demonstração de respeito ao futebol brasileiro não é afirmar que ele vencerá sempre. É reconhecer que, enquanto a bola continuar rolando, jamais poderá ser tratado como figurante. A história, os números e o próprio futebol continuam dizendo exatamente isso.
E, acima de qualquer debate, permanece aquilo que sempre moveu milhões de brasileiros: a esperança! A esperança de ver a Seleção Brasileira voltar ao lugar mais alto do futebol mundial e conquistar o tão sonhado hexacampeonato! Torcer pelo Brasil nunca significou fechar os olhos para seus problemas! Significa acreditar que a história, o talento e a capacidade de superação da nossa Seleção continuam vivos. Que venha o hexa! Não por obrigação, nem por nostalgia, mas porque o Brasil sempre entra em campo com credenciais suficientes para sonhar!
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