Vivemos em um tempo em que ser mulher ainda significa enfrentar riscos que jamais deveriam fazer parte da rotina de ninguém. Basta abrir os noticiários. Todos os dias, novas manchetes relatam casos de violência, abuso, assédio e feminicídio. Crimes que não acontecem por acaso, mas que são reflexo de uma cultura que, muitas vezes, continua tratando a mulher como objeto, como mercadoria ou como personagem secundária da própria história.
É justamente por isso que algumas escolhas feitas pelo poder público precisam ser debatidas.
Em Jequié, uma das atrações contratadas para os festejos juninos foi o cantor Victor, da dupla Victor & Leo. A contratação gerou debates e repercussão nas redes sociais e nos veículos de comunicação locais. Independentemente da opinião de cada um sobre o artista, a situação levanta uma pergunta importante: quais são os critérios utilizados para definir as atrações de uma das festas mais tradicionais do município?
O São João é, antes de tudo, uma manifestação cultural nordestina. É uma celebração construída sobre as bases do forró, das quadrilhas, das tradições populares e da identidade de um povo. Quando artistas sem relação direta com essa cultura ocupam espaço na programação, é natural que surjam questionamentos. Afinal, quem define o perfil da festa? O público? A tradição? Ou apenas a vontade da gestão de ocasião?
Mas a discussão vai além da música.
O que incomoda não é apenas quem sobe ao palco. O que incomoda é a mensagem que se transmite quando determinadas escolhas são feitas sem sensibilidade para questões que afetam diretamente a sociedade. Em uma cidade onde as mulheres ainda enfrentam desafios para ocupar espaços de poder, basta observar que, entre 19 vereadores, apenas duas são mulheres, é legítimo esperar que a administração pública demonstre maior cuidado com os símbolos que ajuda a promover.
Porque música não é apenas entretenimento. Música também é mensagem. É comportamento. É frequência.
E qual tem sido a frequência sintonizada para a nossa gente?
A frequência da valorização da cultura nordestina ou a da descaracterização dos nossos festejos?
A frequência da inclusão ou a da exclusividade?
Porque enquanto milhares enfrentam horas em pé no chamado "miolo do cão", os melhores espaços parecem reservados para poucos privilegiados, protegidos pelos camarotes, próximos ao palco, próximos ao poder e distantes da realidade da maioria que financia a festa com seus impostos.
O São João deveria ser a celebração do encontro. Mas, muitas vezes, acaba se transformando na vitrine da separação.
Há quem diga que isso é detalhe. Não é.
Os símbolos importam. As escolhas importam. As mensagens importam.
Quando uma gestão pública escolhe quem ocupa o palco principal de uma festa popular, ela também escolhe quais valores deseja amplificar. E essa talvez seja a reflexão mais importante de todas.
Porque festas acabam. Os shows terminam. As luzes se apagam.
Mas a frequência que uma sociedade escolhe ouvir continua ecoando muito depois que o último acorde silencia.
E se continuarmos normalizando decisões que ignoram a cultura local, desconsideram debates legítimos da sociedade e tratam a população apenas como espectadora de um espetáculo montado para poucos, a pergunta que fica é inevitável:
O que estaremos aplaudindo no próximo ano?


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