segunda-feira, 13 de abril de 2026

Dia Nacional da Biblioteca, Jequié tem pouco a comemorar, e muito a lamentar

Biblioteca municipal de Jequié 

A ausência de uma biblioteca pública municipal não é apenas um detalhe administrativo, é um sintoma. Um sintoma grave de um tempo em que se troca o essencial pelo supérfluo, o conhecimento pelo espetáculo, o livro pela distração vazia. Não se trata apenas de um prédio que deixou de existir, mas de um espaço simbólico que foi esvaziado: o lugar onde o silêncio ensina, onde a dúvida floresce e onde o cidadão começa a deixar de ser apenas espectador da própria vida.

Biblioteca não é depósito de livros. É fábrica de consciência. É onde o indivíduo aprende a desconfiar, a interpretar, a pensar, três verbos perigosos para qualquer sociedade que se acostuma com o raso.

Enquanto isso, seguimos assistindo à substituição do conteúdo pelo entretenimento fácil. Um mundo que vibra com dancinhas virais, mas tropeça quando precisa formular uma ideia. E não, isso não é um ataque à leveza da vida, é um alerta contra o esvaziamento dela.

Jequié parece ter desaprendido a investir no invisível: na formação, na cultura, no pensamento crítico. E o preço disso é silencioso, mas devastador. Nossos jovens, sedentos por oportunidades reais, muitas vezes precisam partir, não por escolha, mas por falta de opção. Vão buscar em outras cidades aquilo que aqui deveria ser básico: acesso ao conhecimento e caminhos para a dignidade.

Faltam espaços culturais. Faltam políticas públicas que não apenas ocupem o tempo, mas transformem o destino. Cultura não pode ser tratada como passatempo; é ferramenta de emancipação.

Não se trata de rejeitar praças ou obras visíveis, mas de lembrar que uma cidade não se sustenta apenas de concreto. Uma cidade se constrói com ideias. E ideias precisam de espaço para nascer.

Jequié precisa de rumo. Precisa reencontrar o valor da educação como eixo central, não como discurso de ocasião.

Porque, no fim das contas, uma biblioteca não é um luxo. É um termômetro. E o nosso, infelizmente, revela febre alta.

Mas há algo que não foi vendido, nem demolido: a capacidade de resistência de um povo que, mesmo diante da escassez, da ausência de políticos dignos, ainda insiste em pensar, questionar e querer mais.

E isso,  felizmente, não cabe em escritura pública.

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