Chego ao amanhecer deste 5 de outubro com um sentimento de desapontamento. As eleições gerais aconteceram ontem, e os resultados das urnas frustraram a esperança de conquistar uma representação comprometida com a recuperação da região cacaueira e com o fortalecimento de uma das mais importantes matrizes econômicas da Bahia.
Mas uma esperança frustrada nas urnas não significa uma causa encerrada.
Foram 37.355 votos de confiança em Vanuza do Cacau. Pessoas que reconheceram nessa mulher carismática e guerreira a disposição de levar ao Congresso as necessidades de uma região que produz, emprega e precisa ser ouvida.
Um obstáculo, entretanto, marcou profundamente essa caminhada: a escassez de recursos. Vanuza e seu esposo, o engenheiro civil Marcos Túlio Barroso, enfrentaram as exigências de uma campanha que previa percorrer pelo menos 90 municípios em apenas dois meses. A expectativa de financiamento partidário suficiente, alimentada pelos contatos com lideranças, não se concretizou na dimensão necessária.
Uma campanha exige montagem de equipe, transporte, combustível, gravação de mídias, produção de material de divulgação e presença constante nas redes sociais. Tudo isso custa e interfere na capacidade de alcançar os eleitores.
É possível que essa limitação tenha contribuído de maneira expressiva para que Vanuza não alcançasse os votos necessários à conquista do mandato tão almejado pelos trabalhadores da lavoura cacaueira.
Como jornalista e portador de alguma experiência nesses embates, integrei uma equipe que reuniu produtores de cacau e outros participantes dessa cadeia produtiva, irmanados na defesa de uma causa.
Esse foi o sentido que deu força à candidatura: representar uma luta coletiva. A adesão nasceu da confiança, do pertencimento e da esperança de conquistar políticas públicas que assegurem preços justos, valorização do produtor e chocolate de qualidade.
Foram meses de tensões, divergências, aprendizado e muita emoção.
Fiz o meu trabalho na medida do possível. Nem sempre concordamos sobre os caminhos, mas preservamos o respeito recíproco e o compromisso que nos unia. A ansiedade era grande porque sabíamos o quanto aquela conquista poderia significar para o futuro da lavoura cacaueira.
À frente dessa caminhada estava uma mulher que ajudou a organizar os produtores em torno da Associação Nacional dos Produtores de Cacau, por ela fundada e presidida. Uma mulher que tantas vezes precisou extravasar sua indignação diante do desequilíbrio entre quem produz e quem exerce maior poder sobre os preços e as condições de comercialização do cacau, esse produto tão nobre, verdadeiro alimento dos deuses.
Fica na memória dos nossos produtores o grito que acompanhou a campanha: “O cacau tá caindo...”. Um grito que traduziu a angústia de quem vê o preço cair e precisa continuar trabalhando, sustentando a família e mantendo viva a lavoura.
Fica também, na história do cacau brasileiro, a luta de Vanuza Barroso, que transformou a defesa do produtor em candidatura e ajudou a recolocar o cacau da Bahia no debate político.
O mandato não veio. A mobilização, porém, deixou raízes.
Que novos representantes dessa lavoura surjam com a mesma força de caráter da nossa “onça morena”. E que Vanuza encontre, no reconhecimento de quem caminhou ao seu lado, forças para continuar.
Muito obrigado, Vanuza, pela oportunidade de me ligar a essa causa e de ter sido um dos 37.355 baianos que acreditaram na honradez e na autenticidade dessa mulher valente.
As urnas encerraram uma disputa. A causa continua.
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